Desde menina, escrever sempre foi minha paixão e a ideia de escrever um livro me acompanha há muitos anos. A inspiração surgiu da vontade de propagar as várias maneiras de superação. O tema deste livro é a superação. Se você fizer uma análise, praticamente todos os personagens passam por adversidades, em maior ou menor grau. Se não for possível, o personagem se destruirá. Como disse Nietzsche, “o que não me destrói, me fortalece”. O nome Maly – que podemos traduzir de diferentes maneiras: o que há para mim?; o que resta para mim?; o que é meu?; o que cabe a mim? – são perguntas que devemos nos fazer para adentrarmos no processo de superação. Se pensarmos em Maly e buscarmos portas como saídas para não sermos soterrados e destruídos pelas adversidades, com certeza cresceremos como pessoas. E, para evoluir, é preciso sofrer tal como a ostra. Nem todas fazem pérolas, só as que sofrem. Para produzir a pérola é necessário ter algo que a irrite, um grão de areia que a faça sofrer. Ela produz a pérola para deixar de sofrer; para que aquele ponto agudo e cortante seja envolvido por algo liso – que é a pérola. Escutei essa passagem sobre a pérola do grande escritor Rubem Alves.
Tudo o que vivi na vida me influenciou na construção dos personagens. Livros, filmes, vivências pessoais e a minha experiência clínica.
Não, necessariamente. Penso que é um livro para quem gosta de ler; para os que buscam na leitura mais do que uma mera diversão. O livro, além de entreter, traz elementos históricos; momentos de reflexão relacionados a perdas; frustrações; perseverança; e novos projetos de vida. É difícil classificá-lo para um público específico.
Grande parte de Maly foi escrito durante as madrugadas. Eu estava tão envolvida com a história que mal conseguia dormir. No meio da noite era tomada por alguma ideia e corria para o computador para escrever; lá ficava por algumas horas. Quando escrevo, tenho necessidade de ficar só. Parece que entro em um outro universo e – se alguém me chama ou há qualquer interferência por parte do mundo concreto em que vivemos – sou arrancada bruscamente do universo da criatividade e isso atrapalha. Escrever é uma arte e toda arte requer inspiração. Não conseguiria escrever com hora marcada. A mente e as emoções precisam estar livres para que minha energia possa ser canalizada para a escrita. Se estiver agitada, ou preocupada com algo, minhas capacidades e recursos ficam como que represados. É como se não sobrasse Léa para escrever e criar. Por isso, não tenho rotina. A escrita é algo que brota dentro de mim. Do mesmo modo, quando estou envolvida escrevendo, também não sobra muita Léa para o mundo concreto. Por isso, sou grata à minha família que emprestou a esposa e a mãe para a produção de Maly.
Esta história não foi pré-planejada, foi brotando. Como sou judia, portanto, faço parte do povo judeu – meu pai é sobrevivente do holocausto e minha mãe nasceu nas terras de Israel – este tema faz parte de mim, de minha vida e minha história. O circo é algo que se parece com a vida: o tempo todo fazemos malabarismos e acrobacias para lidar com as adversidades da vida. Conforme as ideias surgiam, eu ia em busca da pesquisa sobre os temas – tanto no acervo virtual, quanto em livros: história do povo judeu; como vivem as pessoas do circo; a segunda guerra mundial; o terremoto que abalou a cidade de Áquila; a máfia; como viviam os judeus em 1900; e a belíssima ilha de Capri. Além disso, as questões psíquicas que permeiam toda a história; a maneira em lidar com perdas; frustrações e a superação foram embasadas em minha experiência clínica e de vida.
Gosto muito de imaginar, criar e inventar histórias. Acredito que as pessoas inventam as próprias historias de vida, mas nem sempre se dão conta disso – o que é uma lástima, pois se tivéssemos mais consciência nos responsabilizaríamos mais por nossas vidas; por nossos acertos e erros. Contudo, a vida real impõe limites para a invenção de nossas histórias. Particularmente, sou uma pessoa intensa e preciso de mais espaço para criar do que a vida permite. Então, encontrei um meio útil, adequado e produtivo para viver minhas invenções, escrevendo-as.
Sinto borboletas na barriga. Preciso me conter para não me tornar uma chata, falando o tempo todo sobre a publicação do Maly. Com os amigos, eu até consigo me controlar, mas em casa... meu esposo, Mauricio, e meus filhos falam o tempo todo – mãe você só fala desse teu livro! E isso, porque eu me controlo! Comecei a escrever Maly no final de 2008, comecei a enviar para as editoras em outubro de 2010; enviei para 40 editoras. Recebia propostas, mas percebi que as editoras queriam um acordo comercial e que tampouco leram o livro. Então li que J. K. Rolling publicou Harry Potter com o auxílio de um agente literário. Resolvi ir atrás e encontrei o Ralph Peter. Ele leu, gostou e assinamos o contrato no dia 14 de fevereiro de 2011. No dia 12 de maio deste mesmo ano, Lu Magalhães, presidente da Primavera Editorial, recebeu-me na editora e fechamos o contrato. Coincidência ou não, este é o dia do aniversário de minha mãe, que faleceu quando eu tinha oito anos. E aí está! O livro será lançado agora!
Um livro de ficção é uma história. As pessoas estão sempre em busca de histórias. Para se entreter, aprender, emocionar-se, escapar da própria realidade, identificar-se... Mesmo na era virtual, uma história sempre terá um lugar garantido. Mesmo há alguns anos, quando não existirem mais livros de papel – o que, em minha opinião, será uma perda para a humanidade – sempre existirá escritores escrevendo, inventando e publicando livros virtuais, em chips ou de maneiras que ainda não consigo atingir. “Inventores” de histórias não se extinguirão jamais porque nós, seres humanos, vivemos de histórias: as que nos contam, as que contamos, as que inventamos e as que vivemos.
Difícil um autor falar sobre a própria obra. É como falar de um filho. Cada mãe acha o seu filho muito especial. Dei luz a Maly. Esta história nasceu de mim, só que em vez de nascer do ventre, nasceu da mente. Estou tentando definir, para não deixar sem resposta. Então, vamos lá, penso que é um livro de ficção que dá espaço para muita reflexão. O livro tem movimento assim como a menina da capa – existem momentos de ternura, suspense e ação; há momentos engraçados e tristes; existem histórias paralelas e em cada uma que entramos não temos vontade de sair. Todas estão ligadas, assim como as histórias dos seres humanos sobre a face da terra. Falei, falei e não consegui definir em uma só palavra. Vou tentar mais uma vez... definiria Maly como uma história de superação.
De todos os livros que li, o que mais me marcou foi O Físico, de Noach Gordon – obra que li há cerca de 20 anos. Outro livro que me marcou foi Os Pilares da Terra, de Ken Follet. E, quando era adolescente, gostava do Sidney Sheldon e Herman Hess. Seria injusta se falasse apenas de um autor. Gosto muito de livros que têm histórias paralelas, como a Chave de Sara e Êxodos. Desde pequenina gostava de histórias; lembro que com três anos ou quatro anos de idade, eu tinha dificuldade para comer, então, meu pai tinha um malabarista que dava voltas preso no cordão entre duas madeiras; conforme se pressionava as madeiras, o malabarista dava piruetas. Mas, ele só dava pirueta quando a colherada de comida entrava na minha boca pelas mãos de minha mãe. Talvez daí tenha surgido a ideia da Maly se tornar malabarista. Conto isso, porque é como se eu me alimentasse de histórias. Escrever e atender dá sentido à minha vida. Quando escrevo, invento uma história; quando atendo, dou sentido e significado à história alheia – de certa forma, escrevo e ressignifico uma história, só que a quatro mãos. Desde menina, eu tinha um desejo latente de escrever. Desde pequena sonhava em ser escritora. Acho que sempre tive vontade de que as pessoas escutassem e se inteirassem do que tenho para contar.
Gosto de muitos escritores, mas não creio que tenha sido influenciada por algum em especial. Na primeira vez que enviei o livro para um revisor, ele disse que tenho um estilo. Este estilo está dentro de mim. Não é algo que vem de fora, vem de dentro. Por isso, não sei citar nomes de escritores que possam ter me influenciado.
Perseverança!